segunda-feira, 18 de junho de 2012

Começou com pequenos esquecimentos,  alheamento da realidade, uma visão das coisas incompreensível para mim. Com o agravar da situação chegou o diagnóstico:
Demência, a minha mãe sofria de doença de Alzheimer.
Como conviver com isto?
A minha mãe sempre foi uma pessoa doce, de sorriso fácil, conciliadora, mas com uma vontade de ferro. Toda a vida trabalhou, no duro, para ela e para a família. Prover as necessidades e a harmonia da família foram sempre as suas prioridades. E conseguiu. Apesar de todas as dificuldades, viveu cinquenta e três anos de um casamento feliz, em que ela foi a abelha mestra da sua pequena colmeia.
Como é que esta pessoa pode ficar tão agressiva, insensível, capaz de proferir os maiores insultos? Como é que esta pessoa, sempre tão afável e carinhosa com os seus, deixa de reconhecer os seus rostos?
É tão difícil de entender. É tão difícil de aceitar.
Não posso dizer que fui sempre um modelo de paciência. Houve momentos em que desesperei, gritei, fui para outro local e chorei até me cansar. Houve momentos em que disse para mim - não vou aguentar isto!
Mas, quais são as opções? Levá-la para um lar está fora de questão, por muitas razões. A situação dela não vai melhorar, então quem tem de se adaptar sou eu. Tenho de saber mais sobre a doença. Infelizmente, grande parte dos técnicos de saúde não sabem muito sobre este assunto. Acredito que o caminho passa pela informação e a utilização de estratégias que ajudem a lidar com as várias situações, desde a recusa de alimento ao banho. Não adianta dizer a uma pessoa com Alzheimer que está enganada. É desgastante e ela vai esquecer tudo logo a seguir. A memória perdeu-se, mas a emoção está lá toda. A nossa impaciência ou irritação é perfeitamente entendida. O caminho passa igualmente por termos sempre presente que se trata da nossa querida mãe ou pai, que não têm culpa de estar doentes e de quem nós gostamos muito.
Vou aqui relatar o nosso dia a dia, na convivência com esta doença tão desgastante. Para mim vai também funcionar como catarse, se for possível ajudar alguém que por aqui passe, tanto melhor. As ajudas são muito poucas.